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My butthole is the only one that can turn pain into pleasure

(english below)

Hoje, estive no Hošek Contemporary para assistir a performance de Iacopo Loliva – Between Heart and Hole. Uma mistura de dança, pornografia e afeto. Afeto consigo mesmo de compreender nuances sobre a própria existência e os caminhos que conectam o coração e o cu. Sob uma ótica da pós-pornografia, Iacopo apresenta uma visão muito contemporânea do que tenho chamado de Pornografia do Afeto. A partir do cu, o artista faz um paralelo muito real do que são as relações neste mundo de apps e frágeis conexões que, muitas vezes, o coração teima em acreditar (contos de fada são apenas contos de fada). E entre um – o coração – e outro – o cu – Iacopo escolhe o cu. E eu também fiz esta escolha uma vez. Após tantas decepções amorosas seguindo o coração, quando conheci meu companheiro, escutei meu cu que me disse: “você é uma puta e isto não vai mudar, escolha alguém que queira ser puta junto com você e o coração acompanhará”. Ouvi meu cu, 7 anos depois, somos duas putas construindo uma vida juntos guiados pelos nossos desejos anais e nos amando enquanto indivíduos e casal.

Em sua performance, o artista abre o próprio cu para apresentar uma outra possibilidade de afeto. Tal como a pós-pornografia vem para nos mostrar uma outra possibilidade de cultura pornográfica para além da indústria pornográfica mainstream com seus preconceitos, machismos, patriarcado e violência. O cu como ferramenta contrassexual hightech, já dizia Preciado, mas indo além, o cu como ferramenta pedagógica pornossexualigráfica para quebrar com ideias utópicas de uma sociedade que acredita em príncipes, princesas e finais felizes. O cu como liderança política em busca não apenas do prazer – ainda que venha da dor – mas de políticas públicas. Se pararmos para pensar bem, muitos dos direitos já adquiridos foi o cu que nos guiou até eles. Cus foram comidos para surgirem os retrovirais, PReP, PeP, Doxi-Pep, vacinas etc. Cus foram fudidos para surgirem direitos como a união estável e a adoção por casais homoafetivos. E quem poderá negar que não será o cu o responsável pela revolução que se esboça para um futuro em paz e sem guerra. Quando o cu for legitimado como o verdadeiro herdeiro da alma, ao invés do coração, viveremos a grande transformação mundial. Mas enquanto estivermos pensando num outro mundo a partir do coração, continuaremos a falhar, apesar de suas boas intenções, o coração não entende completamente o que é transformar dor em prazer. Na maior parte da vezes, ele se agarra demais à dor e esquece que é o prazer que nos move.

Iacopo transmuta no palco entre a poesia da existência afetiva e o protesto político do corpo em busca de uma liberdade que é, antes de tudo, coletiva. O cu pode até ser um lutador individual, mas suas conquistas são comunitárias.

Gostei muito do que assisti hoje no palco com Iacopo. Sobretudo, de me sentir parte de uma conexão de cus: entre meu cu e o cu de Iacopo em busca de algo ainda maior. A revolução do cu é feita de conexões.

Obrigado, Iacopo. Meu cu agradece sua dança.

Diretor artístico, intérprete e roteirista: Iacopo Loliva. Dramaturgo: Hadrien Daigneault-Roy. Assistente de coreografia/movimento: Marcel Casablanca Martínez. Técnico de luz/vídeo: Robin Plenio. Fotografia: Annelies Verhelst.

Artistic Director, Performer and Script Writer: Iacopo Loliva. Dramaturg: Hadrien Daigneault-Roy. Choreographic/Movement Assistant: Marcel Casablanca Martínez. Light/Video technic: Robin Plenio. Photo: Annelies Verhelst.

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