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They were _______________ a thousand times!!!

(english below)

Ontem, 07 de março, precedendo o dia internacional da mulher, fui ver a performance-dança Super Superficial, na HAU3, com direção artística e coreografia de Kysy Fischer. Para mim, foi muito significativo que a primeira vez em um teatro, morando em Berlim, tenha sido uma peça com elenco e produção majoritariamente brasileira. Além disso, uma peça feminina e feminista. Então, me peguei pensando, sendo eu um homem cis, como tudo que presenciei ontem me atravessou e ainda me atravessará, pois a performance-dança continuará reverberando em mim. Por um tempo.

Ao adentrar no espaço, 3 pessoas nuas se movem lentamente, muito lentamente, esperando que o público ocupe seus lugares. Escolho por escrever pessoas, pois apesar de observar que, biologicamente, são do sexo feminino, não sei como elas se identificam em relação a seus gêneros. Ao lado delas, uma quarta pessoa (biologicamente do sexo masculino), tocava um instrumento de corda, dando som ao movimento.

A sensação de calmaria e de espera logo se esvai quando somos invadidos pela frase que dá título a este texto, repetida  diversas vezes substituindo o _______________ por palavras como “representadas”, “fotografadas”, “exibidas” e tantas outras que, imediatamente, me vem à mente a obra abaixo da Guerrilla Girls, principalmente, quando as três se posicionam em poses que poderíamos atribuir a de modelos quando estão sendo pintadas, das mulheres ao longo da história da arte que ocupam diversos espaços em grandes museus pelo mundo, mas pelo olhar e as pinceladas/os pixels de homens.

As mulheres precisam estar nuas para entrar no Metropolitan Museum?, 1989
As mulheres precisam estar nuas para entrar no Museu de Arte de São Paulo?, 2017

Por um longo tempo, elas ficam imóveis ou com movimentos quase imperceptíveis. O silêncio do público é presente. Elas nos encaram, nos olham profundamente, como se quisessem seduzir-nos, mas logo elas se entediam, suas expressões dinâmicas entre a sedução e o tédio, seus corpos cansam da imobilidade, precisam ser esticados, antes de voltarem a uma pose qualquer. São minutos e minutos de uma passividade nada passiva, pelo contrário, a imobilidade delas é altamente provocadora, não pela passividade em si, mas pelo o que elas forçam em nossos cérebros, em nossas mentes. Pelo menos, em mim. Já que não posso falar por todo o público lá presente (acho até que alguns homens, sempre homens, estavam bem incomodados com a cena, com os minutos de “não-atividade” das três pessoas no palco, como se quisessem que elas saíssem daquele estado, pois não estavam ali para serem questionados em seu papel de homem cisheteronormativo. Ok, aceito que posso estar divagando, mas ainda assim, acredito que alguns homens na plateia só queriam que elas saíssem daquele estado).

Uma imobilidade que acaba por nos questionar a respeito da nossa própria passividade diante de tantas violências contra a mulher (e aqui, me refiro a todas as pessoas que se identificam enquanto mulheres). E diante da nossa própria passividade, elas gritam sem som, mas com muita voz; se movimentam, se revoltam, revolucionam. A cena calma cede espaço para uma rapidez, uma urgência. Seus corpos se expandem; o som, amplifica; os movimentos, crescem. A cena se amplia, tudo se amplia e elas dominam tudo a sua volta, com corpo, dança, expressões, gestos, com desejo de quebrar com toda inércia que violenta, que mata, que agride.

Somos conduzidos pelo frenético, pelo exagero, pela construção dissidente de um olhar sobre o corpo desnudo para além dos corpos nus femininos espalhados por museus de todo o mundo. O corpo nu em Super Superficial não é a matéria-carne; é matéria-liberdade de ser e fazer o que se deseja. É matéria-alimento, da mãe-mulher-pessoa que nos amamenta com seu leite, com sua vida, com sua força.

Em Super Superficial, não há equilíbrio, o que há é força. Não há superficialidade, o que há é um mergulho profundo, uma quebra profunda nas normatividades e do que a sociedade patriarcal determinou sobre o papel “correto” de uma mulher.

E antes de terminar este pequeno texto, quero agradecer especialmente a uma das produtoras, a Micaela Trigo pelo convite e parabenizar a toda a equipe envolvida na obra. Super Superficial é tudo, menos superficial.

And before finishing this short text, I would like to give special thanks to one of the producers, Micaela Trigo, for the invitation, and congratulate the entire team involved in the work. Super Superficial is anything but superficial.

Coreografia e direção artística: Kysy Fischer / Desempenho: Rafaella Marques, Mariana Romagnani, Manoela Rangel / Música: Kriton Beyer / Dramaturgia: Jaika Bahr / Produção: Micaela Trigo und Rita Ventura / Design de iluminação: Raquel Rosildete / Técnico de iluminação: Ini Dill / Design de vídeo: Leo Naomi Baur / PR: Tom Müller-Heuser / Descrição de áudio: Emmilou Rößling / Coautor e consultor para descrição de áudio: Silja Korn.

Choreography and artistic direction: Kysy Fischer / Performance: Rafaella Marques, Mariana Romagnani, Manoela Rangel / Music: Kriton Beyer / Dramaturgy: Jaika Bahr / Production: Micaela Trigo und Rita Ventura / Lighting design: Raquel Rosildete / Lighting technician: Ini Dill / Video design: Leo Naomi Baur / PR: Tom Müller-Heuser / Audio description: Emmilou Rößling / Co-author and consultant for audio description: Silja Korn.

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