
(english below)
Hoje, visualizando algumas postagens no Instagram, uma me chamou atenção, no perfil da The Berliner, uma revista digital alemã. Era uma imagem da performance SuperSuperficial que tive o prazer de assistir nas minhas primeiras semanas morando em Berlim e que escrevi sobre neste link. A imagem estava seguida da pergunta “Is nudity the new normal on Berlin stages?”. Imediatamente, movido pela curiosidade, fui ler o artigo (publicado aqui), de autoria de Rhyannon Styles. A princípio, tive receio do texto ser aos moldes dos muitos que já li por aí, inclusive, no Brasil, com viés extremamente conservador sobre a questão da nudez no campo da arte, principalmente. No texto, Rhyannon vai tecendo mais perguntas sobre a crescente presença de artistas/performers desnudos nos palcos de Berlim e o quanto ainda a nudez pode chocar o público de forma que o texto inspirou-me a tecer algumas palavras.
Primeiramente, meu receio inicial se deve às palavras usadas na pergunta. Em tempos de tanta violência conservadora de pessoas que acreditam terem o direito de determinar o que é normal e o que não é, colocar em uma pergunta a nudez como agora sendo algo normal merece atenção e cuidado, uma vez que pode ser associado a uma falsa impressão de que a nudez é anormal. Nascemos nus e a sociedade vai nos vestindo não apenas com roupas, mas com códigos de condutas que nos perseguem por toda a existência. Nem na morte, temos o direito de sermos enterrados nus. Do pó viemos e ao pó retornaremos, mas vestidos.
A nossa nudez vai sendo apagada de tal forma que uma pergunta como “a nudez é o novo normal nos palcos de Berlim?” pode parecer banal, mas carrega uma série de significados que acabam por legitimar, inclusive, no sistema de arte, dicotomias como erótico versus pornográfico quando o assunto é as sexualidades nas artes. Dando ao primeiro grupo – o erótico – a validação artística e ao segundo – o pornográfico – a censura e a violência. Mas como já escrevi em outro texto (link), a única diferença entre o erótico e o pornográfico é a grafia destas palavras e, claro, nossa opinião. Assim, acredito que ao escrevermos, nossas palavras carregam significados e que, ainda que as intenções possam ser boas, a recepção de um texto ou uma pergunta é sempre por um terceiro e não pela a autoria.
Lendo o texto de Rhyannon, não sinto, em suas palavras, traços de conservadorismo ou tentativas de censura à crescente nudez nos palcos berlinenses, mas ainda assim, quando penso no meu Brasil e nos palcos e no sistema de arte brasileiros, todo cuidado é pouco para a crescente onda conservadora evangélica, principalmente, porque há uma linha tênue entre nudez e sexualidade. Um corpo desnudo não é um convite à prática da sexualidade (FATO). Um corpo desnudo é o que é: um corpo desnudo. No entanto, uma construção machista patriarcal criou a falsa imagem de que um corpo nu é sempre um convite à sexualidade. As crescentes taxas de feminicídio e violência contra mulheres são, por exemplo, uma prova disto quando homens alegam que a culpa era da vítima por estarem com roupas provocantes mostrando partes do corpo ou desnudas.
Sempre quando penso nas frases que me são ditas em relação à minha prática artística em uma tentativa de desmerecer meu trabalho por conta da nudez e sexualidades presentes, me vêm à mente estas pequenas censuras em forma de “cuidado”: “mas você precisa fotografar pessoas nuas?”, “só falei para o seu bem, para lhe proteger”, “precisa mostrar este cu aberto ou este pau ereto?”, “precisa ser explícito?”, “você só quer se mostrar”, “precisa estar nu” e outras frases do tipo. Em minha mente, eu só penso: eu não preciso nada, eu só quero expressar o que o meu desejo artístico sente. Minha arte não é sobre você, é sobre meu desejo de expressão, é a minha grafia. O que você recebe é por sua conta, não minha. Parece que sempre um artista que trabalha com questões da sexualidade precisa se defender, legitimar a própria criação.
Um corpo desnudo em uma performance, uma peça, ou fotografia pode ser apenas isto: um corpo desnudo. Se ele provoca algo a mais ou não ou se ele causa algum mal estar não é o corpo desnudo em si o cerne da questão, mas como nossa mentalidade está madura ou não para receber este corpo desnudo. Então, se há uma crescente presença de corpos desnudos nos espaços de arte – e que assim continue, não apenas com corpos desnudos, mas também com corpos exercendo a prática da sexualidade – talvez a pergunta não seja se a nudez é o novo normal, mas como estes corpos desnudos podem contribuir para uma quebra nas violências contra pessoas, sejam elas mulheres, trans, negras, com deficiência, dissidentes etc.
Talvez, a pergunta seja “o que o meu corpo nu te ensina?”. Acredito que é aí que está o grande poder de um corpo desnudo, seja no palco, em uma fotografia ou em um parque como os de Berlim (algo que nós, brasileiros, infelizmente, ainda não podemos vivenciar nos parques brasileiros, onde a nudez é proibida e considerada ato obsceno passível de prisão).
Is it normal to say that something is the new normal?
Today, while scrolling through some Instagram posts, one caught my eye on the profile of *The Berliner*, a German digital magazine. It was an image from the performance *SuperSuperficial*, which I had the pleasure of seeing during my first few weeks living in Berlin and which I wrote about here. The image was followed by the question “Is nudity the new normal on Berlin stages?”. Immediately, driven by curiosity, I went to read the article (published here), written by Rhyannon Styles. At first, I was afraid the text would be like so many others I’ve read out there—including in Brazil—with an extremely conservative bias on the issue of nudity, particularly in the field of art. In the text, Rhyannon raises further questions about the growing presence of nude artists/performers on Berlin stages and the extent to which nudity can still shock the public, which inspired me to share a few thoughts.
First of all, my initial concern stems from the wording of the question. In times of such rampant conservative violence from people who believe they have the right to determine what is normal and what is not, framing nudity in a question as if it were now something normal warrants attention and caution, since it can be associated with a false impression that nudity is abnormal. We are born naked, and society clothes us not only with garments but with codes of conduct that haunt us throughout our entire existence. Not even in death do we have the right to be buried naked. From dust we came, and to dust we shall return—but clothed.
Our nudity is being erased to such an extent that a question like “Is nudity the new normal on Berlin stages?” may seem trivial, but it carries a range of meanings that ultimately legitimize, even within the art world, dichotomies such as erotic versus pornographic when it comes to sexualities in the arts. Giving the first group—the erotic—artistic validation and the second—the pornographic—censorship and violence. But as I’ve written in another text (link), the only difference between the erotic and the pornographic is the spelling of these words and, of course, our opinion. Thus, I believe that when we write, our words carry meanings and that, even if the intentions may be good, the reception of a text or a question is always by a third party and not by the author.
Reading Rhyannon’s text, I don’t detect in her words any traces of conservatism or attempts to censor the growing nudity on Berlin stages; yet, when I think of my own Brazil and its stages and art scene, one can never be too careful regarding the rising wave of evangelical conservatism—especially since there is a fine line between nudity and sexuality. A naked body is not an invitation to engage in sexuality (FACT). A naked body is what it is: a naked body. However, a patriarchal, sexist construct has created the false image that a naked body is always an invitation to sexuality. The rising rates of femicide and violence against women are, for example, proof of this when men claim that the victim was to blame for wearing provocative clothing that exposed parts of her body or for being naked.
Whenever I think about the comments people make to me regarding my artistic practice—in an attempt to disparage my work because of the nudity and sexuality present in it—these little admonishments, disguised as “words of caution,” come to mind: “But do you really need to photograph naked people?”, “I’m only saying this for your own good, to protect you”, “Do you really need to show that exposed butt or that erect penis?”, “Does it have to be so explicit?”, “You just want to show off”, “Do you really need to be naked?”, and other phrases like that. In my mind, I just think: I don’t need anything; I just want to express what my artistic desire feels. My art isn’t about you; it’s about my desire for expression; it’s my writing. What you take from it is on you, not me. It seems that an artist who works with issues of sexuality always has to defend themselves, to legitimize their own creation.
A naked body in a performance, a play, or a photograph may be just that: a naked body. Whether it provokes something more or not, or whether it causes discomfort, the naked body itself is not the crux of the matter, but rather whether our mindset is mature enough to accept this naked body. So, if there is a growing presence of naked bodies in art spaces—and may it continue, not only with naked bodies but also with bodies engaging in sexual acts—perhaps the question is not whether nudity is the new normal, but how these naked bodies can contribute to ending violence against people, whether they are women, trans people, black people, people with disabilities, dissidents, etc.
Perhaps the question is, “What does my naked body teach you?” I believe that is where the true power of a naked body lies, whether on stage, in a photograph, or in a park like those in Berlin (something that we Brazilians, unfortunately, still cannot experience in Brazilian parks, where nudity is prohibited and considered an obscene act punishable by imprisonment).